26 janeiro 2013

ARTIGO.

SECA E FOME NA ZONA RURAL DA REGIÃO DE MOSSORÓ.
Por José Romero Araujo Cardoso


Tenho o hábito de sair vagando pela zona rural da região mossoroense, visando conhecer mais sobre as atuais condições de vida da população da área em que resido, pois, dever do geógrafo que prioriza o humano em pesquisas e análises, faz-se necessário constatar in loco quais problemas mais agudos afligem o povo pelo qual se deve firmar compromisso a fim de contribuir para a busca de soluções que erradiquem níveis insatisfatórios revelados em indicadores socioeconômicos.
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A atual situação apresentada pelo quadro natural da região semiárida, quando a efetivação de seca dramática se responsabiliza pela exponencialização de agudos episódios envolvendo a população local, vem intensificando a fome, sobretudo na zona rural, espaço onde a produção de alimentos se apresenta comprometida coma ausência de chuvas.
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Crianças famintas são vistas com freqüência, pois se constituem elos frágeis da situação aflitiva que se instala no campo com o recrudescimento da intensa estiagem que assola o semiárido, sobretudo na região polarizada por Mossoró, tendo em vista a intensidade da ação dos alíseos de nordeste,viabilizada pela corrente marítima de Benguela, formados nas imediações do Arquipélago dos Açores, os quais em consonância com a opção desmedida pelo agrobusiness desestimula qualquer perspectiva de incremento à agricultura familiar como fator de suma importância à produção de alimentos que possam saciar a fome da população carente que sofre de forma impiedosa com a tragédia climática que castiga a região.
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A fome vem imperando em comunidades rurais espalhadas pela região mossoroense. Em São João da Várzea, concentração populacional campesina localizada ás margens da RN-117, caminho para os sertões potiguares e paraibanos, a falta de alimentos vem penalizando seriamente famílias inteiras que tem na agropecuária quase que a única fonte de renda a fim de manter os membros das famílias.
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Não é diferente a situação das famílias que habitam comunidades rurais ao longo da citada rodovia estadual. No município de Governador Dix-sept Rosado, a fome vem assolando impiedosamente, não obstante a proximidade com o curso do rio Apodi-Mossoró. A ausência de infraestrutura que possa permitir o aproveitamento do valioso recurso hídrico intensifica o drama vivido pela população local, tendo em vista que é privilégio de poucos dispor de recursos financeiros que permitam irrigar plantações e dessedentar o criatório.
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A seca vem destruindo plantações e matando o gado, deixando seres humanos em situações calamitosas, com a desnutrição atingindo principalmente, de forma inexorável, pequenas vidas que clamam por alimentos a fim de saciar a fome atroz que assume proporções calamitosas a cada dia que passa.
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Em assentamentos rurais, aposta do governo federal a fim de repovoar o campo, a situação não é diferente, tendo em vista que a falta de água e o preço exorbitante cobrado para garantir abastecimento a partir de adutoras, vem inviabilizando a permanência da população na zona rural submetida, cada vez mais, de forma intensa, aos rigores da seca histórica que vem trazendo desalento e desconfortos materiais e espirituais àqueles que insistem em permanecer arraigado ao chão adusto e causticante do semiárido em sua zona rural.
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A fome é uma realidade cruel que vem se responsabilizando pelas mais dramáticas situações de incertezas ao sofrido povo nordestino, sobretudo a parcela que habita o semiárido. A seca vem intensificando quadro de pobreza histórica que imemorialmente atinge deserdados do modelo adotado em nosso país.
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Atitudes e ações devem ser mais enfáticas do que retóricas discursivas, pois a urgência que se descortina com relação à emergência do fazer imediato pelo povo sofrido e carente dessa região intensamente castigada pela seca e pela fome são condições sine qua non a fim de que o sentido da solidariedade seja implementado imediatamente antes que a fome se torne problema de graves proporções para a sofrida população de baixíssima renda que vem sendo vítima do maior flagelo da humanidade, o drama terrível da fome, denunciado intensamente pela grandeza e pelo humanismo do cientista brasileiro Josué Apolônio de Castro.
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* José Romero Araújo Cardoso é professor da UERN

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