18 setembro 2012

ELEIÇÕES 2012: MOSSORÓ, RN.


Do Blog de Carlos Santos:

PÉSSIMO EXEMPLO

A virtude do atraso na liturgia do poder em Mossoró

Mergulho na etimologia (ciência que estuda origem e evolução das palavras) à procura do significado do vocábulo “liturgia.” Desembarco na Grécia da antiguidade.
Constato que liturgia é o “serviço prestado ao povo”. Entre os gregos desse tempo, servir à coletividade era uma manifestação de dignidade e respeito aos cidadãos.
Entre nós, uma expressão ganhou forma de lugar-comum no círculo fechado do poder, a partir desta palavra. Surgiu a “liturgia do cargo”. Seria o respeito a um ritual de exigências para o detentor de um papel público.
Diante de uma postagem no Blog da Thaísa Galvão nessa segunda-feira (17) – veja AQUI – em que retrata operação comandada pessoalmente pela governadora Rosalba Ciarlini (DEM) na zona rural de Mossoró, no domingo (16), é difícil alguém com o mínimo de senso crítico não ficar perplexo. E decepcionado.
A pediatra que virou política e está governadora do Rio  Grande do Norte, extraviou seu papel de autoridade máxima do Estado. Transformou-se em chefe de um arraial ou espécie de líder tribal. Devolveu Mossoró ao século XVIII ou a recuou mais ainda no tempo.
O modelo de poder paroquial, com provincianismo em suas atitudes e primarismo de mentalidade, é agravado por uma série de detalhes que as fotos e o texto de Thaísa mostram parcialmente.
Sorriam! Vocês estão sendo humilhados (Foto: Assessoria da Governadora)
A governadora do Rio Grande do Norte utiliza a estrutura pública, que é de todos, para promover um escárnio em forma de marketing eleitoreiro picaresco. Mas não temos motivos para rir.
Chegou a ponto de aparelhar a Assessoria de Imprensa do Estado para produzir e divulgar esse cântico da dominação. O jeito certo de fazer a coisa errada e influenciar seus seguidores mais fanáticos a segui-la.
Sob seu comando arrastou militantes e até familiares próximos para casas humildes, marcando gente como se ferra gado. E tudo com direito a fotos que realçam a tentativa de se apropriar do livre arbítrio alheio.
Sorriam! Vocês estão sendo humilhados – poderia aconselhar o fotógrafo oficial da pantomima.
A governadora expõe ao ridículo e ridiculariza os próprios mossoroenses, a quem ela deveria pedir desculpas. Seria um ato de humildade e não de fraqueza. Errar é humano, mesmo para Rosalba, que tem dificuldade em se aceitar como mortal e falível.
A Justiça Eleitoral, claro, entra no enredo como objeto de zombaria. É afrontada. O toma-lá-dá-cá está oficializado.
Debret
A pobre gente humilde e indefesa, apresentada com cartazes da candidata que Rosalba quer eleger, é o retrato do jugo. Estivessem despidos, carregados de colares, brincos e penachos, seriam inspiração queDebret precisaria para pintar um Brasil supostamente paradisíaco.
Pero Vaz de Caminha descrevera bem antes: “Em se plantando, tudo dá”. Agora, Rosalba deve raciocinar que “em se arrancando, tudo pode”.
Há algo de errado em se convencer alguém ou uma família inteira a mudar de lado, substituindo a foto de propaganda de uma candidata por outra? Claro que não.
Com certeza, num estado em que crianças, idosos e adultos morrem em corredores de hospitais, a violência é endêmica e estádio de futebol é mais importante do educação, a cruzada de Rosalba com sua milícia é uma afronta. Não é falta do que fazer, mas de prioridade mais seletiva e apropriada à sua tarefa de governadora.
Quanto à liturgia do cargo, faltou consciência à sua posição de destaque e representatividade. Paus-mandados é que costumam executar esse tipo de empreitada. Nem todos, que se diga. Não ofendamos a maioria.
Imagine só, o presidente Barack Obama saindo pelos arrabaldes da Casa Branca, ao lado da filha, mulher e aliados, desfigurando cartazes do adversário republicano Mitt Romney. Muito provavelmente seria levado à renúncia, segundo os padrões da liturgia do poder norte-americano.
Em Mossoró, não. Tem quem vibre por fazer parte de um arraial.
O atraso virou virtude.

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