02 dezembro 2011

ARTIGO DA SEMANA.

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MANELAVE
(Por Ruberns Coelho - jornalista - rubensfcoelho@hotmail.com

Palavra estranha, né? –Eu também acho. Mas o que venha a ser? É a denominação da fazenda de meus pais, na qual juntamente com meus outros onze irmãos, passamos a maior parte de nossas infâncias, nas proximidades de Milagres, no cariri cearense. O nome do lugar sempre foi motivo de curiosidade e especulação. Quando criança escutei por diversas vezes papai em conversas com parentes ou amigos, falar sobre a origem do nome Manelave, nem ele, nem ninguém tinha a resposta certa. Imaginava-se tratar-se da corruptela de Manoel Alves, mas nenhum registro havia que confirmasse a existência de antigo proprietário com esse nome. Portanto, essa hipótese, estava fora de cogitação. O certo, é que até hoje não se descobriu o porquê de Manelave.

Ontem, lembrando dos bons tempos da fazenda, resolvi consultar o “pai dos inteligentes”, que alguns teimam em chamar “pai dos burros”, o dicionário do Aurélio para verificar se existia a palavra que a denominava e seu significado. Foi uma surpresa, existia, mas o significado nada tinha a ver com área rural. Vejam o que está lá: “Manelave, pequena porção de coisas que se pode abarcar com a mão”. Ora, uma propriedade com uma légua de comprimento e meia de largura, seria inimaginário se abarcar com mão. Então o mistério continua.

Lembrei-me também de um meeiro da fazenda, cujo nome Antônio Xarinha era assim que se pronunciava o estranho sobrenome, que, também fui buscar no Aurélio o que queria dizer, e encontrei Xarinha como sendo: “O natural ou habitante da Cidade Alta, em Natal/RN”, enquanto o dicionário de Antônio Houaiss, usa a palavra “xaria”, para a mesma designação. Mas, teria o “morador”, como se chamava antigamente os agregados das fazendas, sua origem no Rio Grande do Norte, na capital potiguar, mas precisamente na Cidade Alta? Tai outro mistério envolvendo o Manelave.

Antônio Xarinha, nosso personagem, a imagem que guardo é de um negro corpulento, atarracado, meia idade, trabalhador, família grande; pai de muitos moços e moças solteiros, acho que por isso, sua casa estava sempre disponível para um bom “samba”, forró de antigamente, debaixo de uma latada de palha de coco e chão batido. Antônio Xarinha freqüentemente usava um termo quando queria definir algo que suscitava dificuldades, dizia: “Aí é onde se amarra o bode e se capa o gato”. Não sei por que o bode entra nessa estória, pois o caprino geralmente é pacato, não cria problema algum para o homem. Agora capar um gato era extremamente complicado pela natureza agressiva do felino quando açulado. Hoje é diferente, basta aplicar-lhe uma anestesia, depois o serviço é feito sem dificuldade e dor para o bichano.

Interessante, como coisas simples ficam gravadas em nossa memória, passa o tempo não esquecemos e de vez em quando as recordamos com saudade.
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