19 setembro 2009

- ARTIGO

A CASA DE CORA CORALINA
(Por Franklin Jorge)

Para começo de conversa devo dizer que deixei a casa de Cora Coralina sem ter prestado nenhuma atenção ao ambiente em que vivia, pois enquanto ali estive só prestei mesmo atenção às suas palavras que vinham de muito longe, aos borbotões, como água de levada. Encantado com tudo o que dizia, somente pude anotar alguma coisa porque fui instado a fazê-lo por uma moça que se engraçara comigo e que achava que, por ser eu um jornalista, não podia sair dali sem ter matéria, pelo menos, para a produção de um artigo.

Considerada a maior doceira de Goiás, título que a satisfaz plenamente, Cora Coralina é muito exigente em tudo. Fica satisfeita quando alguém come o seu doce e diz Bem feito! Repudia o Gostoso!, o Está ótimo!, que a seu ver já estariam implícitos no Bem feito!, resume Bariani Ortêncio em seu livro mais famoso, inspirado na cozinha de sua terra goiana.

Tendo vivido grande parte de sua vida numa pobreza enorme, aprendeu a prestar atenção às oscilações da economia nacional, assunto que acompanha com interesse, lendo as seções especializadas dos jornais ou através dos noticiários do rádio e da tevê. Sabia tudo sobre os movimentos da Bolsa, especialmente da Bolsa de Futuros, dos generos alimenticios negociados antes de serem colhidos.

Mulher pragmática, aos noventa anos ela considera que a literatura não é profissão nem dá camisa a ninguém. Acha que fazer doces para turistas é um negócio muito mais rentável do que escrever, embora considerando que o povo, que mal tem para a sobrevivência, não tem dinheiro para gulodices.

Muito observadora, chegou à conclusão de que o homem come pouco doce, com raras exceções, tirando sempre o menor pedaço, ao contrário da mulher, que escolhe o maior, embora não o coma inteiramente. Já a criança tanto come quanto desperdiça… Por isso, ela só faz doces em pequenos pedaços, para evitar desperdícios.

Doceira emérita, suas especialidades são os doces de figo, laranja, banana e cidra, que rivalizam com a fama de seus versos. Ocasionalmente faz tabletes de abóbora e de leite e, durante as safras, passas de caju. Sempre prefere a qualidade à quantidade.

Às vezes, ela suspende a colher de pau e ali mesmo, ao lado do fogão, se debruça sobre um caderno, no qual anota um verso… Só estão vivos aqueles que já morreram… Ela adora escrever e alimenta-se de uma curiosidade incontentável. Uma vez em que autografou um livro para mim aproveitou para interrogar-me sobre o que me levava a escrever e que significado eu extraía dessa experiência que lhe parecia por demais misteriosa para ser decifrada.

Quis saber ainda se os jovens potiguares cultivavam o hábito da leitura e se havia bibliotecas públicas bem sortidas em todo o Rio Grande do Norte, democratizando o acesso ao livro. O autógrafo, contendo tais indagações, estendeu-se por duas páginas. Responda-me por escrito, ela pediu, mas não tive coragem. Temi uma dessas correspondências intermináveis que acabam por se tornar absorventes.

Sua velha casa, na Ponte da Lapa, recebe muitas visitas. É das mais antigas de Goiás. Segundo Cora Coralina gosta de narrar, tem uma crônica que a singulariza e que a integra ao mundo emocional e mitológico da cidade que já foi opulenta, ao tempo em que o ouro de Goiás era levado em grande quantidade para Portugal.

Construída em cima de um muro de pedras levantado por escravos, pertenceu a um Thebas Roriz Rodrigues, recebedor do quinto real em Vila Boa, que ali se suicidara, depois de desviar parte do ouro pertencente ao rei. Temendo a devassa desmoralizadora, o recebedor ainda tentou subornar o emissário do rei, enviando-lhe em uma rica bandeja de prata lavrada, moedas e barras de ouro cobertos com uma alva toalha de linho bordada.

Quisera assim peitar o fiscal da Coroa, conforme contava Cora Coralina, dramatizando, pois há nela uma formidável atriz. A ourama, contudo, foi devolvida, porque ainda havia naquele tempo funcionários honestos.

Roriz, temendo ser enviado sob correntes para os subterrâneos do Limoeiro, prisão terrível de onde poucos conseguiam sair com vida, muitos devorados por famintas ratazanas, envenenou o escravo de confiança, para fazer-lhe companhia na outra vida, e depois se matou.

A casa teria sido então arrematada por um antepassado da escritora, o sargento-mor José Antonio do Couto Guimarães, permanecendo desde então em poder da sua família. Contava Cora à Doutora Amália, com quem por muitos anos conversou sobre as tradições da cidade enclausurada no tempo.

Nascida Anna Lins dos Guimarães Peixoto, aos cinqüenta anos, já viúva desde os 46, mudou o nome para Cora Coralina, porque, segundo explicava, em Goiás havia muitas Aninhas e Anas, por causa da padroeira da cidade, Santa Ana, e ela queria ser única e inconfundível. Cora vem de coração, explicava. Coralina é um coração vermelho. Minha intenção era não ter xarás. Não queria ser confundida com ninguém mais. Eu queria ser única. Única.

Já muito idosa, tendo fraturado o fêmur numa queda, compôs uma “Ode às muletas”. Uma vez ela deu algumas sementes a Doutora Amália, que lhe teria perguntado que espécie de flores nasceriam delas. Cora, que era muito positiva e facilmente irritável como dos poetas disse Horácio, foi logo retrucando, Não me lembro. Mas se não fossem bonitas não tomaria o trabalho de colher as sementes.

Plantadas em seu jardim da chácara Amália, de onde escrevo estas linhas à margem do córrego João Leite, cresceram viçosas e floresceram magnificamente. Eram ipoméias, de câmpanulas graúdas, azuis-arroxeadas com garganta e veios rosados, explica-me a famosa botânica com voz rascante peculiar, enquanto vai tecendo um lindo buquê com que me presenteia.

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