05 maio 2008

- UM POEMA DE CLAUDER ARCANJO.

TIJOLOS
A destruição foi rápida. Cada estirão de parede foi derrubado em segundos.
Parecia até que, antes, estavam em pé por milagre.
Os cabras chegaram de madrugada. Pareciam sombras. A cachorra Caliça nemsequer latira. Presenças pressentidas tão-somente pelas pancadas firmes naalvenaria oca.
— Derrubem tudo! Quebrem tudo! Esfarelem até os tijolos.
Na mata, nenhum pio. O silêncio como testemunha. Dentro de uma moita,escondidos, Deolinda, Caliça e eu. Por precaução, Deolinda mantinha a sua mão tampando a minha boca. Nós três, de olhos aboticados, aguardando os homens pôr fim ao serviço.
— Derrubem tudo! Quebrem tudo! Esfarelem até os tijolos.
Na queda de cada pano de parede, um som cavo. Caliça, entre as minhas pernas, muda, como se de garganta presa, sem ganir.
Quando a cozinha foi abaixo, o som metálico das panelas de flandres impôs um certo ar de troça à situação. Mas quem haveria de rir?; a raiva doscaboclos era por demais opressiva.
— Derrubem tudo! Quebrem tudo! Esfarelem até os tijolos.
Quando foi tudo ao chão, a chibanca e a marreta comeram solta sobre osdestroços. Um esfarelar de telhas e restos. Pisoteio de ódio.
— Quebrem tudo! Esfarelem até os tijolos.
Em pouco tempo, a calmaria. Esquisita, a doer mais de que o barulho anterior.
Com mais um pouco, o sol na barra. O trinado de um galo-da-campina na copada algaroba da frente anunciou o dia.
Caliça foi a primeira a sair. Correu no rumo de casa, e farejou tudo.
Ganindo e desorientada, voltou depressa para junto da gente.
O sol preguiçoso revelou-nos claramente o acontecido. Uma espécie de monturo onde outrora era a nossa morada.
Ao deixarmos a mataria, rodeamos as ruínas. Calados, de olhos mais arregalados ainda.
Decidida, Deolinda ajeitou o coque, passou as mãos na barra da saia, e bradou:
— Juntemos tudo! Tudo nos serve! Principalmente os tijolos.
(Clauder Arcanjo — Professorclauder@pedagogiadagestao.com.br Texto publicado no jornal Gazeta do Oeste (Mossoró-RN), caderno Expressão, espaço Questão de Prosa, edição de 6 de abril de 2008.)

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