08 setembro 2007

- JUÍZA E JORNALISTA MOSSOROENSES PARTICIPAM DE CURSO NO CHILE.

A juíza da Vara da Infância e da Juventude da Comarca de Mossoró, Rio Grande do Norte, Dra. Fátima Soares é uma das magistradas brasileiras credenciada para participar do X Curso de Proteção Jurisdicional do Direito da Criança que acontece de 10 a 14 de setembro de 2007, em Santiago no Chile.
Além da Dra. Fátima Soares, outra representante mossoroense convidada pela UNICEF é a jornalista Regina Cunha da TCM TV CABO MOSSORÓ .
Ambas (a juíza Fátima Soares e a jornalista Regina Cunha) estarão presentes como convidadas especiais na abertura oficial do evento que acontece na noite desta segunda, dia 10 de setembro, na Universidade de Direito Diego Portales, em Santiago.
O objetivo do X Curso é promover o desenvolvimento de habilidades e conhecimentos para aplicação de um enfoque que garanta os Direitos Humanos da infância, com ênfase especial na justiça penal para adolescentes.
Participam do evento 74 profissionais da Argentina, Colômbia, Chile, Paraguai, Uruguai e Brasil que receberão certificação acadêmica da Universidade de Direito Diego Portales.
O curso se realiza desde 1998 e até o momento já capacitou mais de 500 profissionais da área jurídica em toda Latino América.
Quatro pontos constituem as matérias fundamentais deste X Curso:
- A opinião da criança e o interesse superior da criança na decisão de casos sobre custódia e visitas;
- O reconhecimento da garantia da criança e do adolescente no devido processo;
Os critérios para a determinação da imposição de sanções pela Lei Penal aos adolescentes infratores;
- Os direitos da criança e do adolescente no campo da educação e da saúde.

Mais detalhes:
Regina Cunha - jornalista (84 8802-9191)

UNICEF SANTIAGO CHILE - 56 2 42288841
www.unicef.cl
www.unicef.org
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UMA PROSA (POR CLAUDER ARCANJO)
Entrei na Academia
O título admite interpretações dúbias, é meu propósito. Mas não pensevocê, leitor, que já me fiz imortal. Não, apenas resolvi, há poucos dias,estando em curso no Rio de Janeiro, aproveitar o final da tarde de uma sexta-feira e visitar, juntamente com meu amigo Edno, a Casa de Machado deAssis, sede da Academia Brasileira de Letras (ABL).
Era um dia aprazível, a grande cidade não nos parecia tão opressora e insegura. Fomos caminhando pelas ruas do Centro, em busca do bairro do Castelo. Era tudo de que me lembrava do endereço da ABL. Pergunta daqui, sonda dali, informações certas, outras nem tanto, e, em pouco menos de trinta minutos, estávamos frente ao Petit Trianon. Na entrada, a estátua de Machado, com o seu pince-nez, e uma frase na lápide que não me ficou namemória. Turista ocasional, faltaram-me máquina, caneta e papel, apenas, etão-somente, a mente curiosa e bibliófila. De repente, demos com uma turma já reunida à porta do templo dos imortais. Um segurança a nos explicar que precisaríamos ter nos inscrito para avisita; como não conhecia o rito da casa, desculpei-me, mas ele pediu licença e, dado ao não grande número de visitantes naquela ocasião, pôdenos encaixar. Salvos pelo jeitinho brasileiro, refleti.
Em minutos, dois atores e uma atriz, apresentados por uma das funcionáriasda ABL, conduziram-nos pelos corredores do Petit Trianon, réplica do Petit Trianon de Versailles, prédio doado pelo governo francês, e que abriga a Academia desde 1923. Em cada móvel, em cada canto, um quê de tradição, de vetusto ambiente, de memória viva. De início, uma rápida explicação acercado momento em que nasceu a Academia. Voltamos, pelas artes do recital, aosfins do século XIX. Vi-me nas tertúlias literárias, ao lado de Lúcio Mendonça, Machado de Assis, Olavo Bilac, e tantos outros. Em cada ambiente, uma detalhada explanação. Quadros, bustos, principais objetos, ritualística da casa. Conhecemos o local onde o eleito, antes do seu discurso de posse, passa momentos de reflexão, e, solitário, prepara-se para proferir suas palavras de ingresso na ABL. Sem percebermos, fizemos um grande silêncio, como se entre nós estivesse um escritor a ser empossado. Passamos para a sala contígua. Mais bustos e quadros com os principais ícones da nossa literatura. E vibrei ao reconhecer tantos mestres: Euclides da Cunha, José de Alencar, João doRio, Nabuco, Castro Alves, dentre tantos. Em seguida, fomos apresentados à sala Machado de Assis. O Bruxo do CosmeVelho mereceu, na minha visão, o ponto alto da festa. Poemas, histórias, curiosidades, seu amor por Carolina, os principais romances, tudo ficouressaltado, com vagar e com esmero. Para, logo em seguida, sermos surpreendidos com uma exposição de seus objetos pessoais: escrivaninha, armário com seus livros, artigos de uso íntimo...
Senti, dentro de mim, alembrança dos contos e das páginas recheados de fina ironia do autor de Dom Casmurro. A seguir, entramos no salão dos grandes atos. Mobília em estilo francês,paredes com iluminação apropriada, mesa e cadeiras dispostas com alinho, como se prestes a proceder a um evento de posse do mais novo imortal.
Nessa grande sala, os atores contaram causos, cenas memoráveis, relembraram discursos que entraram para a história da ABL. Dentre vários,a eleição da primeira mulher, a cearense Rachel de Queiroz, e a dúvida quanto às vestes que ela iria usar no dia, já que o fardão fora concebidopara, até então, escritores. Um dos pontos emocionantes foi quandorelembraram Guimarães Rosa, o mineiro não resistiu à forte emoção, e faleceu dois dias depois de ser saudado como imortal.Voltamos para uma saleta contígua e, vigiados pelos poetas românticos (Castro Alves, Fagundes Varela, Álvares de Azevedo e Gonçalves Dias), vimo-nos onde são velados os acadêmicos. Um arrepio correu-me a espinha, uma oração quis assomar aos meus lábios. Fomos, então, convidados aconhecer, no piso superior, o ambiente onde se dá o chá dos imortais, nastardes das quintas-feiras, às quinze horas. Ao lado, o espaço reservado às reuniões dos imortais. Nas paredes ao fundo, quadros com os patronos dosquarenta assentos da Academia. Alguns, velhos conhecidos; outros, nemtanto. Éramos trinta curiosos. Mas logo percebi que havia entre nós um grupo dejovens. Aproximei-me, mania de mestre, atraído pela vivacidade dos alunos. Com jeito, identifiquei o professor. Antônio Carlos era o seu nome. Com umarroubo de intimidade, chamei-o de xará, pois também detinha o pré-nome dosanto casamenteiro. Disse-me que sua disciplina era literatura, e que resolvera trazer os seus “meninos e meninas” para uma aula de campo. Vibrei com o projeto, e quase que lhe dei um caloroso abraço, porém mecontive. Na saída, trocamos e-mails, dividimos percepções, mostramos intimidades; as letras já nos fizeram íntimos.
Ao término, a noite ainda não cobrira o Rio. Ainda a tempo de conhecermosa exposição dos cento e dez anos da Casa. Depois disso, dispersamo-nos, uns seguiram para a Biblioteca, outros para a livraria, uma parte para a exposição em homenagem ao paraibano Ariano Suassuna. Não mais avistei Antônio e seus discípulos. Silentes, Edno e eu resolvemos descer os degraus do Petit Trianon, não semantes levantarmos os olhos e fitarmos Machado, despedindo-nos. Mas, por pouco tempo, pois logo o reencontraríamos nas páginas de um dos seus inigualáveis livros.
Clauder Arcanjo — Professor clauder@pedagogiadagestao.com.br
Texto publicado no jornal Gazeta do Oeste (Mossoró-RN), caderno Expressão, espaço Questão de Prosa, edição de 2 de setembro de 2007.

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