26 setembro 2007

- CURIOSIDADES DA IDADE MÉDIA.

Naquele tempo, a maioria das pessoas casava-se no mês de junho início do verão, porque, como tomavam o primeiro banho do ano em maio, em junho, o cheiro ainda estava mais ou menos.
Entretanto, como já começavam a exalar alguns "odores", as noivas tinham o costume de carregar buquês de flores junto ao corpo, para disfarçar. Daí temos em maio o "mês das noivas" e a origem do buquê.
Os banhos eram tomados numa única tina, enorme, cheia de água quente. O chefe da família tinha o privilégio do primeiro banho na água limpa.
Depois, sem trocar a água, vinham os outros homens da casa, por ordem de idade, as mulheres, também por idade e, por fim, as crianças. Os bebês eram os últimos a tomar banho. Quando chegava a vez deles, a água da tina já estava tão suja que era possível perder um bebê lá dentro.
É Por isso que existe a expressão em inglês "Don`t throw the baby out with the bath water", ou seja, literalmente "não jogue o bebê fora junto com a água do banho", que hoje usamos para os mais apressadinhos...
Os telhados das casas não tinham forro e as madeiras que os sustentavam eram o melhor lugar para os animais se aquecerem; cães, gatos e outros animais de pequeno porte como ratos e besouros. Quando chovia, começavam as goteiras e os animais pulavam para o chão. Assim, a nossa expressão "está chovendo canivetes" tem o seu equivalente em ingles em "it`s raining cats and dogs".
Para não sujar as camas, inventaram uma espécie de cobertura, que se transformou no dossel.
Aqueles que tinham dinheiro, possuíam pratos de estanho. Certos tipos de alimentos oxidavam o material, o que fazia com que muita gente morresse envenenada - lembremo-nos que os hábitos higiênicos da época não eram lá grande coisa... Isso acontecia freqüentemente com os tomates, que, sendo ácidos, foram considerados, durante muito tempo, como venenosos.
Os copos de estanho eram usados para beber cerveja ou uísque. Essa combinação, às vezes, deixava o indivíduo "no chão" (numa espécie de narcolepsia induzida pela bebida alcoólica e pelo óxido de estanho).
Alguém que passasse pela rua poderia pensar que ele estava morto, recolhia o corpo e preparava o enterro. O corpo era então colocado sobre a mesa da cozinha por alguns dias e a família ficava em volta, em vigília, comendo, bebendo e esperando para ver se o morto acordava ou não. Daí surgiu a vigília do caixão.
A Inglaterra é um país pequeno, e nem sempre houve espaço para enterrar todos os mortos. Então, os caixões eram abertos, os ossos tirados e encaminhados ao ossário, e o túmulo era utilizado para outro infeliz.
Às vezes, ao abrir os caixões, percebiam que havia arranhões nas tampas, do lado de dentro, o que indicava que aquele morto, na verdade, tinha sido enterrado vivo. Assim, surgiu a idéia de, ao fechar os caixões, amarrar uma tira no pulso do defunto, tira essa que passava por um buraco no caixão e ficava amarrada num sino. Após o enterro, alguém ficava de plantão do lado do túmulo durante uns dias. Se o indivíduo acordasse, o movimento do braço faria o sino tocar. Assim, ele seria "saved by the Bell", ou "salvo pelo gongo", como usamos hoje.
(Enviado por Jovane Dantas - Assú-RN)
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-UMA PROSA (POR CLAUDER ARCANJO)
NO AEROPORTO
Eu os vi juntos, e algo me tomou a atenção. Aparentemente havia neles oque há de mais comum em um casal: a proximidade física dos rostos, a mãopor sobre o ombro, uma palavra furtiva em sussurro de confidência, e otempo aos seus pés, pois aprendi — e como custo a aprender certas coisas!— que o amor torna o tecido das horas um manto inconsútil e quaseinfinito.Como o aeroporto estava em pleno bulício dos embarques e desembarques —era uma ensolarada manhã de domingo —, cuidei de fingir interesse tambémem outros enamorados. Porém, nem bem decorrera um minuto, e lá estava eu,de novo, com os olhos sobre o colo dos dois.
Em instantes percebi que residia ali, tal qual inquilino intruso, um poucode dor. Digo isso pelos olhos voltados ao rés do chão. A tristeza pesa na visadade quem por ela é punido. Não há horizontes quando a melancolia invade oterritório de um coração apaixonado. Em tal situação, acredito com toda aforça da minha tosca filosofia, ninguém quer falar no amanhã, a esperança se esvai, o presente é tão grande, mas tão grande e doído, que eclipsa o futuro, encobre a tudo e a todos, e o hoje reina altaneiro e soberano, trágico e soberano. Ou pior, trágica e soberanamente iniludível. E como o pesar humano é sobremaneira ímã para este cronista, esqueci-me do papel de fingido observador e fixei-me na cena em minha frente. A partir daí não vi mais nada no meu entorno, tudo se resumia ao quadro daquele casal, apaixonado em plena madureza, à espera de um vôo. Notei que as palavras sumiram, em definitivo, dos seus lábios, e que, apartir de um certo momento, passou a apertá-la cada vez mais forte ao peito. A voz com a programação das aeronaves, de forma lenta e protocolar, lembrava os horários, e a necessidade cruel de partir, principalmente fazendo uso da amedrontadora expressão: “Última chamada!”. Foi aí, entre um anúncio e outro, que ele observou as horas no relógio e, de imediato, sussurrou-lhe algo ao ouvido. Os olhares só então se cruzaram; eles pareciam até ali temerosos desse ato, e um instante de hesitação habitou as bocas trêmulas...
Inesperadamente, uma lágrima, brilhante e dançarina, deslizou pela facerubra da senhora. Nesse exato instante, confesso, quis fugir daquela demonstração de dor. Odeio ser testemunha dessas lancinantes desventuras. Conheço-me bem para saber dos meus limites, e a sangria do amor me conduz fácil fácil para acompanhia do choro, copioso diga-se a bem da verdade. A partir daí, assomou-me à mente um turbilhão de lembranças, lembranças de um pretérito que já julgava olvidado: cenas de romances desfeitos, momentos doídos de outrora, filmes antiqüíssimos em que mocinhos e mocinhas eram separados pelo crudelíssimo destino...
A custo, recuperei o equilíbrio, respirei fundo e reuni coragem paravoltar ao meu posto de observador. E assim o fiz. Flagrei-os no exatoinstante da despedida. Ele enxugava suas lágrimas com um belo e longobeijo, sublime consolação, ao tempo em que a cingia com um amplexoapertado. As palavras continuaram relegadas ao purgatório do abandono. Elas, na quele momento, de nada lhes serviriam. Caminharam rumo ao portão de embarque e, para surpresa minha, foi ela quem partiu. Desnorteado, o jovem senhor ficou querendo vê-la na parte interior do salão, embalde. As paredes e os espessos e escuros vidros não permitiriam nem mais um naco de intimidade entre os dois. No entanto, ele não desistia. Na ponta dos pés, qual um bicho de estimação aflito, que sofria ao se ver separado da sua dona, ele ia e vinha, numa busca desesperada de colher uma réstia de luz da amada, um aceno, ou, talvez, um flagrante de sua imagem. Um sentimento de pena tomou-me por completo e, sem me aperceber, fui me aproximando. De perto, pareceu-me mais velho, bem dizem aqueles que afirmam que a dor envelhece. Ele estava cabisbaixo, e com uma máscara de sofrimento marcando-lhe a face de quarentão. Quis falar-lhe; algo como um pequeno consolo, mas quem disse que alguma palavra me socorreu. Todos os meus poemas de amor banharam-se com a patinado ridículo. Transcorridos alguns minutos, ele saiu, sozinho, pelo longo vão do aeroporto, em passos miúdos, trôpegos e doridos. E eu fiquei por um bom espaço de tempo a observar-lhe até vê-lo sumir distante. Bem distante.
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Clauder Arcanjo — Professor
Texto publicado no jornal Gazeta do Oeste (Mossoró-RN), caderno Expressão,espaço Questão de Prosa, edição de 23 de setembro de 2007.

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