13 agosto 2007

- A TRAGÉDIA E A EUFORIA OBSCENA


"Que o governo Lula é incompetente, já sabia. Vive enredado na teia monstruosa de trinta e sete ministérios. Surfa nos bons ventos da economiainternacional. Distribui mesadas no balcão do toma lá e me dá de volta oque interessa: bons índices de popularidade. Diante de qualquer crise, enfia a cabeça no buraco da omissão e joga a culpa em Pedro Álvares Cabral e seus sucessores. Que corrompeu e continua corrompendo não sou eu quem diz. É o Procurador-Geral da República que denunciou o bando dos quarenta e o recente relatório do Banco Mundial que pode ser traduzido da seguinte maneira "nunca antes na história deste País a corrupção atingiu níveis tão elevados".

Que é um governo irresponsável, também, não é novidade. Hipoteca o futuro com desfaçatez. Reforma política? É problema do Congresso. Não é não cidadão! É reforma para ser conduzida por uma liderança que aprova o que quiser no Congresso governista. Apagão energético? Apagão da infra-estrutura? Apagão na segurança? Falta responsabilidade de estadistaque ponha os olhos no futuro, falta um mínimo de capacidade gerencial que aponte saídas para os problemas conjunturais. Para Lula, o poder é uma festa regada a aplausos dos aduladores e embalada pela música insuportável (para os ouvintes) da sua própria voz.
A novidade veio agora diante da maior tragédia da aviação brasileira. É um governo cínico, desrespeitoso e que tripudia sobre suas próprias vítimas.Primeiro foi Dona Marta, a grã-fina quatrocentona, com o famoso e. maisdo que nunca, inesquecível "relaxe e goze", aplicada aluna da logorréia do chefe, autor da nova antologia da besteira e do mau-gosto (lá atrás chamou Pelotas de "pólo exportador de veados", registrou a passagem de Napoleão na China, sugeriu o encontro do ponto G nas relações Brasil/Estados Unidos e por aí vai). Depois, o Sr. Mantega, o bobo alegre, que acha que a economia deve a ele o bom momento por que passa, afirmou que o "apagão aéreo" é reflexo do progresso.
E agora, superando todo que já aconteceu, esta sinistra figura chamada MarcoAurélio Garcia, assessor internacional de Sua Excelência, acolitado pelo assessor de imprensa Bruno Gaspar, são flagrados numa euforia obscena. Eles estavam assistindo à reportagem sobre o defeito no reverso da turbinadireita do Airbus da TAM. Suas imagens foram captadas pelo cinegrafista Rafael Sobrinho. A euforia foi traduzida em gestos e coreografias obscenas assim descritas no blog de Josias de Souza: "(O Marco Aurélio) mão direita espalmada, desferiu tapinhas sobre o topo da mão esquerda, fechada de modoa compor um círculo com o indicador e o polegar[...] (Bruno) levou os dois braços à frente e, com as mãos cerradas, puxou os cotovelos contra a cintura, adiantando levemente a pelve".
O significado obsceno do gesto e da coreografia todo mundo sabe. Agora vamos ao significado político. Era preciso encontrar uma saída para não macular a imagem de Lula (até então convenientemente escondido) e do governo. Ali estava um achado: a culpa do acidente é da máquina ou do piloto. Uma fatalidade. Temos discurso e o presidente, o mágico da comunicação, mais uma vez vai convencer a nação de que é o maioral e ponto. O resto que se exploda. Nada mais interessa, senão bons índices de popularidade. Assim foi com a vaia da abertura do Pan: obra do Maracanã ou de conspiração (os áulicos recorreram a Nélson Rodrigues a quem detestam sendo que alguns mais pressurosos citaram autor errado). Tudo é obra do acaso. Dos outros. Como se o apagão aéreo não fosse fruto da incúria, da irresponsabilidade, do conluio entre a ganância empresarial em promiscuidade com órgãos públicos, inclusive, uma agência reguladora, a Anac, partidariamente loteada. E não me venham com o argumento cínico de que se quer politizar a tragédia. Em qualquer país do mundo, de civilizado regime parlamentarista, o governo estaria no chão. A tragédia não é apenas um drama humano, é, também, um fato político porque, na base, está um governo negligente. Voar no Brasil é uma temeridade que é o pólo oposto da covardia. Acoragem é o meio do caminho. Somos os passageiros da temeridade."

(Por Gustavo Krause, consultor de empresas, foi ministro da Fazenda e do Meio Ambiente.)

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