08 agosto 2007

- PELAS TRIPAS

“Quem tem... tem medo”.
(Adágio popular)
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Achava-se imortal. Saúde de ferro; sempre professara pelos quatro cantos da cidade. Músculos fortes, juventude nos olhos e na boca cheia de dentes — apesar da prótese — e de projetos mirabolantes. Pondo e dispondo, de tudo e de todos.
Foi no meio da madrugada que veio o primeiro sinal. Um arrocho nas tripas. Falta de ar, de tanta dor. Antes do alvorecer, o segundo aperto. Lívido e porejado de suor, conseguiu chegar à casa da única filha. “Me ajude!...”. Viúvo, decidira morar sozinho. Longe da jovem Lúcia, e sem empregada. Pois sempre fora auto-suficiente, dono do seu próprio nariz. “Me viro, gente. Me viro!” No consultório médico, a bata curta, mostrando as pernas cabeludas. Mão atrás, medo da brecha. Vergonha das nádegas murchas. Em pouco tempo, dezenas de perguntas e, ao final, o toque. Detalhado, perscrutador. Fechou os olhos oblongos, envergonhado da presença da atendente, e da sua situação humilhante, devassada. No juízo, as graçolas picantes, e já tidas como certas, do cabra Lúcio. Perdido em digressões, veio o arremate do doutor. Retirando as luvas, e jogando-lhe nos peitos as palavras afiadas, cortantes.
— Nem preciso de exames suplementares, o senhor está pelas tripas!
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Clauder Arcanjo — Professor
clauder@pedagogiadagestao.com.br

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