26 julho 2007

- MINHA INFÂNCIA (Um conto de Clauder Arcanjo)

Minha infância

Abrindo um antigo caderno foi que eu descobri: Antigamente eu era eterno. (Paulo Leminski)
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Volta e meia, a gente se sente invadido pela saudade dos tempos de outrora. Um dos períodos que nos causa mais suspiros poéticos, principalmente quando a marca do tempo avança sobre nós, é a meninice. Como escrever crônica é, antes de qualquer coisa, um ato de despir-se lentamente, em um strip-tease do espírito nas páginas dos periódicos, hoje, permitam-me, retirarei a minha pátina de segredo, se é que há, desse tempo pretérito.
Há infâncias repletas de dramas, dignas de pungentes relatos, eivadas de lágrimas e sofrimentos, passíveis de um diário lacrimoso. Mas, para decepção de alguns, e alívio de uns poucos, a minha infância teve um certo ar de leniência. A brandura dos meus pais, diria até aliada à pasmaceira da província natal, Santana tão presente em meus menores gestos, foi a responsável por uma certa blindagem — aqui estou copiando expressões dos economistas! E quem é que consegue ficar livre dessa turma? — às maldades do mundo. Não digo que não as presenciei, porém nada muito digno de nota.
Sei que a normalidade não é amiga da atenção dos leitores, no entanto insistirei em relatá-la. Nasci numa pequena cidade do interior do Ceará, Santana do Acaraú, eterna Licânia, aos 3 de março de 1963. Numa tarde chuvosa, com raios e trovoadas. Não me lembro do momento, contudo minha mãe, com uma certa emoção nos olhos, sempre me diz que quase não resistimos ao “tranco”. Pus primeiro os pés para o mundo — parto de burro —, o que dificultou sobremaneira o trabalho do jovem casal de médicos que nos assistia. Ao cabo da luta, restaram os dois — minha mãe e eu —, extenuados, desfalecidos, mas vivos.
Meu pai é discípulo do recato, e da palavra sóbria, nunca foi de gestos amplos e grandiloqüentes. Na sua brandura — é sempre chamado de Zequinha, e tem como sobrenome Arcanjo —, aprendi pouco tempo depois, reside a sua força, patrimônio valioso. Mais do que um pai exigente, tivemos em casa um companheiro, um conselheiro amigo. Nele, palavras e atos se comungam na
paz da mansidão. Nossa mãe: Maria Djanira. Em sua faina, a força da mulher nordestina, a fé inabalável nos dias vindouros, e o assomo dos Alves. O nosso quê de destemidos. Somos, então, filhos de uma Maria e de um José.
Eles, nos frutos, puseram, em cada um, o prenome de uma santidade. Maria José, José Maria, eu (Antonio Clauder), Francisco Sávio, e João Helder. Mamãe sempre confundiu os nossos nomes. Francisco Sávio, quando queria chamar o João Helder. José Maria, quando o “certo” seria Antonio Clauder.
De início, brincávamos com aqueles descuidos, hoje percebo que, por trás daquelas falhas, havia uma lição inquestionável: éramos iguais para ela. Em nós não via diferenças. Na puerícia, aprendi a respeitar o estudo, porta de entrada para um amanhã melhor. A prioridade número um de nosso lar era o aprendizado, nada poderia nos retirar dessa senda.
— Vou dar a vocês algo que ladrão nenhum rouba: a educação.
Hoje, sou eu que professo, para os meus, tais palavras.
Nossa mãe Maria nos enchia de bênçãos. Uma delas segue-me:
— É puro, é santo, é milagroso, e é bom! — a energia da palavra, o verbo antes da carne.
Os amigos eram fartos, as brincadeiras quase sem maldade. Os banhos no rio Acaraú, a bandinha de música, as caçadas de baladeira, as novenas de Senhora Sant’Anna, as idas ao Serrote da Rola, as caminhadas até o Eldorado e a Lagoa das Pedras. O futuro não nos apoquentava os passos, não nos cingia com o manto da preocupação. Tudo parecia eterno. Não havia, entre nós, a diferença malsã entre pobres e ricos, éramos tão-somente companheiros, e isso nos bastava.
Nunca fui desenvolto, nunca detive o jargão da malícia nos lábios. A timidez, logo por mim percebida, fez-me reservado, mas a enfrentei, submeti-a ao ridículo da exposição pública. Primeiro, sendo orador do jardim-de-infância. E como me tremiam as pernas! Com o tempo, passaram a me ver como sujeito atilado, desavergonhado de falar em público. Contudo, cá bem fundo, a pudica criança ri desse credo.
Levo, sem nenhuma vergonha, pela vida à frente, o lenitivo do meu passado.
De lá sempre ressurge lembranças travessas, meu tesouro maior. A minha pequena porção de simplicidade e mansuetude, afirmo sem pudor, veio dessa época. E este ar de riso traquino que, subliminarmente, eclode em algumas páginas, vem de Santana. Terra que concilia, na mesma praça pública, a dor do palhaço com a folgança do passaredo.

Clauder Arcanjo — Professor
clauder@pedagogiadagestao.com.br
Texto publicado no jornal Gazeta do Oeste, caderno Expressão, espaço
Questão de Prosa, edição de 22 de julho de 2007.

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