11 julho 2007

- ABISSAL

Eram namorados. Recentemente enamorados. Ela, sisuda e contida. Ele, tímido, às dúvidas cingido.
Ele a sabia exigente e culta, amante das definições singulares, inimiga do lugar-comum, do trivial.
— Amor da minha vida!
Nem pensar.
— Querida, luz dos olhos meus!
Brega em demasia. Nem sonhar.
E, assim, imerso na busca da palavra exata, Adroaldo Saraiva fez-se cada dia mais mudo e aperreado. Em busca de inspiração, pôs os olhos nos olhos dela.
Nada.
Pôs o olhar nos lábios dela.
Também nada.
Levou o seu rosto para mais junto da face dela.
E o entalo assomou-lhe à garganta, trancando-lhe a voz.
Num assomo de verborragia, em esforço supremo, vituperou-a, levado pelo brilho caviloso da lua. Inesperada saraivada declamatória.
— Se houvesse menos mal na prosa, se houvesse menos trauma nos versos, se eu fosse tal e qual um possesso... eu lhe diria, amor: Minha paixão é abissal!
Guilhermina sacudiu as tranças, deu-lhe as costas, e nunca mais quis saber de Adroaldo. O abissal pôs a pique o barco das suas pretensões.
Hoje, Adroaldo, por onde anda, cabisbaixo e rezingueiro, amaldiçoa o seu destino:
— O meu mal foi abissal!
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Clauder Arcanjo — Professor
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