05 dezembro 2013

EPIDEMIA DA ÉTICA.

De um momento para outro, menos do que o tempo de transição entre duas gerações, o Brasil virou o estuário universal da ética. Quem abre as revistas semanais, os jornalões de priscas eras, os blogs e demais redes sociais, tá todo mundo banhado de água benta.

É tanta honestidade impressa que não dá pra entender o que se passas nas ruas. Essa gente deve sair das redações por um túnel secreto que os leva à casa beatificada de suas moradas. Não passam pelas ruas, pelo passado nem por suas próprias biografias.

A epidemia de ética produz a síndrome da amnésia. Basta ler os colunistas das quatro principais revistas semanais. Como estão santificados os antigos parceiros de Belzebu!

Nem precisa proibir as próprias biografias. Uns, pela escassez do que contar, quatro ou cinco páginas já esgotariam todas as luminosas aventuras. Outros, porque se contarem tudo em minúcias e escancaramento será preciso tirar a meninada da sala.

Diferentemente dos artistas que se meteram nessa discussão, pois eles com toda babaquice da proibição nada têm a esconder. Pelo contrário, sempre fizeram o bem aos ouvidos com sua música e ao mundo com sua arte.

Não se pode dizer o mesmo dos paladinos éticos de certas instituições e de alguns veículos manjados da nossa vetusta “imprensa”. Ou melhor, de pilantras protegidos pela imprescindibilidade da imprensa. Aqui sem aspas.

Dos que fizeram acordos e conchavos, imaginando que após o silêncio da liberdade o poder os deixaria usufruir da mesma convivência. Caíram do cavalo. E após a queda, sacudiram a poeira suja dos seus atos e vestiram uma fantasia de resistentes. Patronos da Democracia.

Mas a lição de Lincoln continua viva. “Você pode enganar alguns por todo o tempo, todos por algum tempo, mas não enganará todos por todo o tempo”.

Assim como os escândalos se sucedem, no focinho da impunidade consentida, os arautos da ética vez ou outra deixam escapar a face exposta entre os molambos das máscaras desbotadas de uso e disfarce.

E com essa constatação vamos vivendo entre esperanças perdidas e decepções angariadas. Ou como diria o poeta, “a esperança é o espeto onde falta o assado”.

E no correr da carroça ética das nossas deficiências morais, temperadas de esperteza ou despeito, transitam de um lado a outro a única verdade quase absoluta: De que no Brasil, e especificamente no Rio Grande do Norte, o único lado saudável da atividade política é o lado de fora.

E os jornalões, de papel ou só de tela, mais as Revistas semanais só nos dão saudade d’O Cruzeiro, Manchete e Realidade. Essas sim; não foram cúmplices. Seus pecados nem sequer bateriam às portas do Purgatório.

Enquanto os éticos atuais terão de ler na porta do Inferno o aviso terrível: “Lasciate ogni esperanza voi ch’entrate”. Té mais. 

Françóis Silvestre - escritor e procurador do RN.

Nenhum comentário: