19 outubro 2013

ARTIGO.



UMA CORAJOSA MOÇA MAL COMPORTADA.
Por Léa Maria Aarão Reis – via Carta Maior

26 de junho de 1968. Passeata dos cem mil, uma das maiores manifestações de rua da história republicana, no Brasil. Cidadãos de todas as origens, idades, credos e profissões desfilavam pela Avenida Rio Branco, Centro do Rio de Janeiro com uma disposição nunca vista antes. Homens e mulheres desciam dos edifícios de escritórios a todo instante para engrossar a multidão que protestava contra o arrocho, cada vez maior, da ditadura civil-militar no país. Na linha de frente da passeata - a foto é histórica -, um grupo de belas mulheres, atrizes e estrelas do cinema, televisão e teatro, de braços dados, desafiavam, corajosamente, o sistema e os generais. Tonia Carrero, Eva Wilma, Odete Lara, Leila Diniz e Norma Bengell, ela na época com 33 anos, abriam o cortejo.

Seis meses depois Norma era presa e o AI-5 amordaçava as moças da comissão de frente, a multidão reunida na avenida e todos brasileiros.

Menina criada no Lido, em Copacabana, bairro carioca reduto dos funcionários públicos, nos anos 50, filha de mãe enfermeira e de origem classe média simples, Norma era uma bonita moça recém saída da adolescência, inteligente, com educação básica, um admirável corpo e a determinação singular para os seus 15 anos: queria ser alguém especial na vida. Dura tarefa para a garota de origem modesta, em um tempo em que as mulheres casavam e se conformavam em ser donas de casa bem comportadas como lembrou há dias a recém premiada Nobel da Literatura, a escritora canadense Alice Munro, de 82 anos.

Com Norma foi diferente. Ela afirmou, dentre outras conquistas pessoais e profissionais, o protagonismo da mulher da sua geração, das moças que, como ela, não seguiam os modelos sociais ainda rígidos da época.

Leila Diniz, uma companheira de geração, costuma ser lembrada   como o belo fetiche da liberação da mulher brasileira. Não chegou a envelhecer; morreu jovem e bonita e sua lenda foi preservada. Já Norma, assim como Leila outra moça mal comportada, contribuiu até mais, para salvar quantas meninas da repressão, do conservadorismo e da ignorância. Mas morreu aos 78 anos, e pobre.

O primeiro emprego, modelo de uma célebre loja de alta costura carioca, não durou muito. A atmosfera esnobe do lugar e o físico voluptuoso de Norma não se deram bem. Da passarela de moda pulou para o teatro revista, um gênero que, na época, fazia grande sucesso. Ali Norma começou a construir seu prestígio como uma das estrelas dos espetáculos de plumas da boate Night and Day. Trabalhou no primeiro filme, O homem do Sputnik, em 59, e sucedeu Elis Regina no show de bolso Contraponto, da mitológica boate daqueles breves anos dourados, a Zum Zum. Lá tentou a profissão de cantora com a sua voz afinada, mas pequena, adequada para a bossa nova recém nascida; mas insuficiente para voos mais altos.

Numa madrugada, no badalado restaurante Fiorentina frequentado por boêmios, artistas, jornalistas e respectivos aspirantes, Norma recebeu do respeitado diretor Ruy Guerra o convite para participar do filme Os cafajestes (1962). Sua sorte ia mudar. Mas havia uma peculiaridade no trabalho: ela devia ser filmada nua – nu frontal -, na sequência de um estupro, à noite, em uma praia. Norma topou. Sua corrida desesperada, sem roupa, pelas areias da Praia do Forte, em Cabo Frio, lindamente iluminada pelo excelente fotógrafo paulista Tony Rabatoni, ia catapultar a moça para a fama, aqui e lá fora. A ajuda veio na mesma época com o filme de Anselmo Duarte, O pagador de promessas, Palma de Ouro do Festival de Cannes. Norma filmava com Anselmo, em São Paulo, e ao mesmo tempo trabalhava com Ruy, no Rio. Na Ponte Aérea, comprava o passaporte de entrada definitiva no mundo artístico: sessenta filmes como atriz, um deles como diretora (era o que mais desejava fazer, quando mocinha), Eternamente Pagu, vários discos gravados e inúmeros trabalhos no teatro e na televisão.

Na fase seguinte das várias vidas que viveu intensamente, casou com o ator italiano, Gabrielle Tinti, viveu em Roma no círculo de amigos do legendário cineasta Luchino Visconti e só voltou ao Brasil mais tarde, quando se tornou diretora.

Depois da contenda do bloqueio de seus bens pela justiça por um suposto desvio do dinheiro captado para a produção de O guarani, filme que estava dirigindo em 2007, Norma foi sendo posta à margem pelo mercado de trabalho, por vários amigos e conhecidos. “Mesmo se um dia eu ganhasse o Oscar seria sobre o episódio do processo que iam falar”, costumava dizer, entristecida.

Norma Bengell foi importante não só para a nossa cultura, como  para a política em um sentido mais amplo, comenta o  cientista político, Antonio Lassance: “Ela ajudou, se expondo, a combater a ditadura, colocou a cara a tapa contra o regime e arriscou seu prestígio em defesa da liberdade, da democracia e da luta contra o atraso. Hoje, muitos artistas se alinham justamente no sentido contrário e emprestam suas caras ao atraso. Foi figura de destaque na bossa nova e no cinema novo e representou, na época, um novo país que estava surgindo, mais industrializado e mais urbano.”

Mesmo nos últimos cinco anos de vida, de doença e solidão, o rosto da Bengell, como era carinhosamente chamada, permaneceu iluminado pelo seu olhar perturbador, penetrante e meio esgazeado, de permanente espanto. Alguém que amou viver e quis entender a geleia geral que a vida é.

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