08 julho 2011

ARTIGO DA SEMANA.

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AINDA É UM MISTÉRIO
(Por Rubens Coelho - jornalista - rubensfcoelho@hotmail.com)
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O que veio fazer Lampião e seu bando em Mossoró? Já foi escrito toneladas de livros sobre o célebre bandoleiro. A maioria absoluta exaltando seus feitos pelo sertão afora. Sua “bravura” é cantada em versos e prosas que escuto desde menino. Já passei dos sessenta e a cantiga continua. Surgem novos textos sobre o tema, sem qualquer novidade. Quem, no entanto, quiser conhecer algo diferente da história de Lampião e seu bando, precisa ler o livro da antropóloga e socióloga, Luitigarde Oliveira Cavalcante Barros, que por trinta anos pesquisou a vida e a trajetória de Virgulino Ferreira da Silva, escrevendo o livro: “A Derradeira Gesta-Lampião e Nazarenos Guerreando no Sertão”.  Os nazarenos valentes sertanejos de uma família pernambucana, que enfrentava Lampião e por ele era temida.
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Em sua obra, a escritora, conhecedora profunda do assunto, destrói o mito do cangaceiro justo e bom, para mostrar o lado maldito e cruel de Lampião e seu bando, especialmente contra pessoas pobres e desprotegidas. Ela entrevistou vítimas das perversidades dos facínoras: ”Conheci intimamente mulheres curradas pelos cangaceiros na presença de Lampião”. Entre eles, o psicopata Zé Baiano, que tinha por diversão, ferrar  a face de suas vítimas, mulheres. Não havia benevolência, entre a matilha, essa estória de defensor dos pobres é uma grande balela, Virgulino na verdade era um aliado dos poderosos coronéis, governadores, políticos, juízes, enfim da classe dominante. 
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O encontro de Lampião com Padre Cícero e Floro Bartolomeu, lugar tenente do influente vigário, quando lhe deram a patente de capitão, para ele combater a Coluna Prestes, é o paradigma da realidade política inerente ao bando. Se Lampião e seus súcias fossem defensores da legítima justiça social, teriam se aliados aos combatentes da Coluna Prestes, estes sim, batalhadores contra as arcaicas estruturas políticas e sociais existentes no Brasil da época. Por que não o fizeram? Porque estavam muito bem inseridos no contexto social e político daquele tempo.
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Mas, o que ainda nos intriga 83 anos depois da invasão, é o mistério que envolve a vinda a  Mossoró. Qual era o verdadeiro objetivo de Lampião? Até então ele só atacava cidades pequenas do sertão nas regiões onde dispunha de coiteiros e protetores. Aqui era atípica, não se tem notícia da existência de uma coisa ou outra, pelo menos em tese, além de ser uma cidade comparativamente grande em relação às comumente invadidas pelos bandoleiros.
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Deve ter tido forte motivação para a aventura mossoroense. Desvendar esse mistério é, a meu ver, o único assunto ainda inédito à disposição dos pesquisadores sobre cangaço. A SBEC bem que poderia pesquisar e desvendar esse enigma.
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Outra coisa, dizer que Lampião não estava à frente do bando que invadiu Mossoró, é tergiversar,  fabricar estória, pois como disse o professor Lemuel, eram de 60 a 70 homens. É inimaginável essa gente vir aqui sem o comando direto de Virgulino? Não tem lógica. Alguém quer desdenhar a coragem, a valentia e a campanha vitoriosa dos mossoroenses no episódio.
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