10 agosto 2008

- DOMINGO TRANQÜILO.

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AGOURO (por Clauder Arcanjo)
— Foi alta noite... Madrugada? Não sei, poderia ser. Mas, que já era noite alta, isso era!
— Você teve medo, Sisógenes?
— Só um arrepio forte, de alto até embaixo da espinha, pois não sou homem de medo.
— Teve vontade de correr, então! Essas coisas põem a gente de pé na bunda. Acaba nos tirando dos modos, sabe?...
— De início, não tive pernas, não tive...
— No entanto, elas tremeram!...
— Ai!... E como!... Puxa, e como!...
— Agora me conte tudo. Tintim por tintim, viu?...
— Alta noite. Noite alta. Deitado, à cata do sono, mexia-me na rede. E nada de dormir; a rede, um espinho. De repente, um ruflar de asas. Forte, muito forte. Pensei em morcego, daqueles grandes que tinha na casa velha da fazenda. De ponta a ponta das asas, quase meio metro. Negro, no negror da noite. Arregalei os olhos, e juntei depressa s punhos da rede. Passado um pedaço, botei um cantinho do olho direito na fresta que abri, correndo a vista pela sala, esgaravatando o telhado, cada caibro e cada ripa... e nada. Não reuni mais coragem para abrir a rede. O suor escorria-me pelas costas nuas, os músculos se retesaram, em ânsias de cãibra. Foi quando se deu outro voejar; mais próximo, desta feita lambendo o fundo da rede. Encolhi-me, um cotoco de gente. Se os dentes fossem afiados e graúdos perfurariam o pano, e encontrariam a minha carne e as minhas veias, pensei. Alta noite, sozinho naquela casa, ninguém daria definição, caso eu gritasse. Vi-me morto, sugado, sem nenhum pingo de sangue. Encontrado três dias depois, devido ao mau cheiro, à fedentina, à podridão dos meus restos. Nem haveria velório, seria tangido para o fundo da cova, enterrado sem rezas, sem missa de corpo presente, pois todos me desejariam logo debaixo de sete palmos de terra. O morto em exéquias apressadas, todos de lenço nas ventas a fingir emoção, mas, na verdade, na verdade, a fugir do mau cheiro. Tanto pensei em tudo isso, que juntei forças e saltei da rede, um pulo e uma carreira. Levei penico, porta, com tramelas e tudo, banco, tamborete, e o jarro grande do jardim. Tudo nos peitos. Sem falar que, no desespero, pisei no rabo do gato, e chutei para longe o coitado do vira-lata, julgando-o um aliado do dito-cujo... Enfim, foi um destroçar de coisa e de bicho, que só parei agora, compadre, sete léguas e meia depois. Não me peça para lá voltar. Diga ao meu cunhado que pode ficar com tudo. Desse tipo de herança, quero distância, prefiro ser pobre.
— Mas, Sisógenes!...
— A pobreza, compadre, ao mau agouro. Comigo não, comigo não!
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